Meu UniVersos: Texto besta, mas é legal...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Texto besta, mas é legal...

Perigoso*



Quando eu era criança, meu avô tinha um cachorro que se chamava Perigoso. O bicho era tão bravo que ninguém podia passar na frente da casa sem levar uma mordida. O portão tinha que estar sempre fechado, porque o danado derrubava qualquer um que passasse de bicicleta. O povo da cidade detestava aquele cão.
Lembro quando fomos passar as férias na casa do vovô e lá estava Perigoso, rosnando, mostrando os dentes, marcando presença. "E aí, Perigoso! Só na manha, bróder?", já cheguei chegando no dog. NHAC! AUAUAUAUAUAUAUAU... Quase levei uma mordida e logo me dei conta de que era um cão de pouquíssimos amigos.

Meu avô disse para não chegarmos perto do bicho nem passarmos correndo nas proximidades de seu delimitado território, pois ele não obedecia ao ditado "cão que ladra não morde". Além de latir o dia inteiro, Perigoso arrancava pedaço de quem desse uma de abusadinho para cima dele.
Para amansar o vira-latas, vovô nos chamou para participar da hora do lanche. Eu e minhas irmãs jogávamos pedaços de carne enquanto nos aproximávamos com muita calma, bem de mansinho. Dali a pouco, já estávamos fazendo carinho. Em menos de uma semana, Perigoso se transformou em Totó.
A gente montava no cachorro, puxava o rabo dele, vestia o coitado com as roupas mais ridículas... E o máximo que ele fazia, para demonstrar seu desconforto, era nos dar mordidinhas, bem de leve. Ele ainda latia e rosnava para todo mundo da rua, mas com a gente era o cão mais meigo, alegre e divertido do mundo.
O bichinho ficava tão emocionado, quando nos via chegar com as malas para passar as férias todas ali, que começava a uivar, latir, chorar e rosnar ao mesmo tempo. Era muita vontade de nos dizer o quanto estava feliz e como queria expressar a saudade que tinha sentido.
E Perigoso pulava, e brincava, e se divertia horrores com a gente. Aos poucos, nos demos conta de que amávamos imensamente aquele cachorro, que, além de brincalhão, era super inteligente. Só faltava falar.
Um dia, minha irmã mais velha fez alguma sacanagem com Perigoso. Então o cachorro deu-lhe uma mordidinha fraca, como fazia usualmente. Mas, cheia de manha, minha irmã se sentou na escada, escondeu o rosto e fingiu que chorava na língua dos cães:
- Caiiimmm, caimmm, caiimm...
Percebendo o terrível erro, Perigoso sentou-se ao lado dela e começou a chorar também, como que pedindo desculpa por tê-la mordido. A cena dos dois chorando na escada é inesquecível.
Outra vez, vestimos o cachorro com uma blusa velha que era usada como pano de chão. Perigoso se escondeu debaixo da mesa e passou o dia inteiro cabisbaixo. O danado tinha muita personalidade. Foi super difícil tirá-lo de seu esconderijo para, então, livrá-lo daquele trapo velho.
Deu muita pena vê-lo naquele estado de introspecção depressiva. Depois disso, decidimos que não obrigaríamos nosso querido amigo a vestir mais nada a contra gosto.
Quando as férias estavam perto de acabar, empacotávamos nossas coisas, nos despedíamos dos meus avós e entrávamos no carro para ir embora. Nessas horas, Perigoso sempre ficava desesperado, entrava no carro e queria porque queria ir com a gente. Obviamente, meus pais não deixavam. Para nós e para Perigoso, era hora de dar adeus e lamentar a saudade.
Certas férias, fomos para a casa do vovô com a costumeira vontade imensa de encontrar nosso cão amigo. Mas, para nossa decepção, Perigoso não estava lá. Vovô disse que tinha dado o vira-latas para alguém que ele não soube explicar quem era, nem onde morava. Eu era criança, mas não era (tão) burra. Juntei os pontos: cachorro bravo. Odiado na cidade. Gente ruim. Veneno. Perigoso já era.
Não cheguei a chorar sua morte, preferi acreditar no meu avô. Até demos algumas voltas na cidade à procura da nossa alegria-sobre-quatro-patas. Depois, passamos a lamentar aquela ausência de graça em meio as férias. Mas o que mais lamentei foi o fato de que as pessoas da cidade nunca conheceram bem o cachorro que eu mais amei na vida.

*Extraído do blog das 30 pessoas.

4 comentários:

Luciana disse...

E quem nunca conheceu um cachorro assim???

Carol disse...

Eitah pouxa! Será que Pirata é assim? Não, não!

Meu mundinho disse...

Amei a historinha...quem nunca amou um cão???

Anderson Costa. disse...

Mt legal! Tdos nós já tivemos um cachorro especial.

Bjs!
Jah bless!

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